sábado, 18 de agosto de 2012





Um feixe de flores róseas e lilases, firmemente atado, é colocado sobre a carroça de madeira clara. E lá vai ela vencendo a ladeira. Na terra nua as crianças brincam, apoderando-se dos ramos que fazem rastro no chão. Acompanham os cavalos, alegres e barulhentos.
Chegam à cidade, condutor e carroça. E logo as flores, separadas em pequenos ramalhetes, são passadas para outras mãos. E vão-se para outros espaços, enfeitar as casas, alegrar as vistas, encher de perfume o ar. O mesmo cheiro, a mesma cor que traziam consigo... integrados na expressão daquilo que são.
Quando paramos para imaginar as histórias que vivem em cada fato corriqueiro de nossas vidas? Quem imagina as flores que compra balançando ao vento, num sítio cultivadas, tendo seu destino traçado já quando nascem, ou brotando livres no campo, inconscientes da própria beleza?
Se pudéssemos ver o que há por detrás de cada coisa, talvez compreendêssemos melhor aquele olhar que nos é lançado ou a palavra aguda que fere o nosso orgulho. Ah, se não nos limitássemos às análises daquilo que percebemos no imediatismo e estreiteza da nossa visão!... Talvez conseguíssemos entender melhor as nossas próprias razões e desatinos. Se olhássemos para nós mesmos, sentindo a densidade da nossa experiência pregressa, se a acumulássemos, não na forma dos hábitos que cultivamos, mas como aquele que por ter muito visto, conquistou tolerância e paciência, talvez pudéssemos agir menos impulsivamente. Quem sabe, assim, teríamos elementos para impulsionar uma ação mais reta, menos sujeita às intempéries dos humores.
É preciso atribuir um sentido mais amplo ao nosso próprio existir. Que abracemos o que somos, vendo que aí está embutido o que fomos. Mais do que aprender, precisamos aplicar o que aprendemos. Pois muito sabemos, é verdade, mas pouco fazemos para mudar. Usamos nossa experiência para refletirmos depois da resposta de nossa ação. Mas precisamos dela para impregnar a nossa prática. Não simplesmente pensando antes de nos colocarmos em ação, mas calcando os nossos atos nesta sabedoria que vive em nós.


Francisco Cândido Xavier

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